O mercado condominial vive uma das maiores transformações de sua história. Impulsionado pelo avanço da tecnologia, pela digitalização dos processos e por um novo perfil de morador, o setor precisou rever práticas tradicionais e adotar uma postura mais estratégica para atender demandas cada vez mais complexas. O que antes era uma atividade predominantemente operacional passou a exigir visão multidisciplinar, capacidade de adaptação e gestão profissional.
Essas mudanças foram tema de uma conversa no podcast Conexões para Crescer, do oHub, com Roberto Bigler, CEO da JUA Gestão Imobiliária e vice-presidente de condomínios no SECOVI Rio. Durante a entrevista, ele destacou como a transformação digital e a mudança de comportamento dos consumidores impactaram diretamente a forma como condomínios são administrados atualmente.
Segundo Bigler, o setor precisou responder rapidamente às novas expectativas dos moradores, que passaram a exigir mais praticidade, transparência e agilidade nos atendimentos. Ao mesmo tempo, administradoras e síndicos precisaram investir em tecnologia e capacitação para acompanhar a velocidade das mudanças.
“O maior desafio foi a tecnologia. Quem não possui ferramentas adequadas e canais digitais eficientes acaba perdendo competitividade no mercado”, afirmou Roberto Bigler.
O morador mudou e elevou o nível de exigência
A transformação do comportamento dos moradores talvez seja uma das mudanças mais perceptíveis dos últimos anos. Acostumados a resolver praticamente tudo pelo celular, consumidores passaram a esperar a mesma experiência quando o assunto envolve seu condomínio.
Assembleias online, aplicativos de atendimento, acesso digital a documentos e comunicação instantânea deixaram de ser diferenciais e se tornaram expectativas básicas. O conforto proporcionado pela tecnologia passou a influenciar diretamente a forma como moradores participam da vida condominial.
Além disso, o acesso facilitado à informação mudou a relação entre moradores, síndicos e administradoras. Hoje, antes mesmo de entrar em contato para tirar uma dúvida, muitos moradores já pesquisaram o tema em buscadores ou ferramentas de inteligência artificial, chegando às conversas com um conhecimento prévio sobre o assunto.
“O cliente hoje tem muito mais informação disponível do que tinha antigamente. Nosso papel passou a ser ajudar a interpretar e aplicar esse conhecimento à realidade do condomínio”, explica Bigler.
Da administração operacional para a gestão estratégica
Outra transformação importante está relacionada à crescente complexidade da gestão condominial. O aumento das exigências legais, tributárias, contábeis e regulatórias exige profissionais cada vez mais preparados para lidar com diferentes áreas do conhecimento.
Se no passado a principal função era emitir boletos e controlar pagamentos, atualmente a administração condominial envolve uma série de obrigações acessórias, cumprimento de legislações específicas, gestão documental, prestação de contas e acompanhamento de mudanças regulatórias.
Esse cenário exige uma atuação mais estratégica, baseada em conhecimento técnico, análise de dados e visão integrada dos processos. A profissionalização dos síndicos e a busca por equipes multidisciplinares também surgem como reflexos dessa nova realidade.
“A gestão exige capacidade de transitar por diversas áreas do conhecimento. Não basta executar tarefas repetitivas; é preciso compreender o contexto e antecipar mudanças”, destaca o executivo.
Transparência, reputação e experiência ganham protagonismo
Com moradores mais informados e conectados, temas como transparência e reputação passaram a ocupar posição central na gestão dos condomínios. A facilidade de acesso às informações elevou a expectativa por prestação de contas mais clara e comunicação mais eficiente.
Ao mesmo tempo, a reputação digital se tornou um fator relevante para empresas e profissionais do setor. Avaliações online, comentários de clientes e indicadores de satisfação passaram a influenciar diretamente a percepção de credibilidade no mercado.
Segundo Bigler, a busca por uma boa reputação digital não está apenas relacionada à imagem da empresa, mas também à melhoria dos processos internos. Quando organizações passam a monitorar a experiência do cliente de forma consistente, acabam identificando oportunidades de aperfeiçoamento em diversas áreas.
“O cliente não busca brindes ou surpresas. Ele quer que o problema seja resolvido da forma correta, dentro do prazo esperado e com transparência”, afirma.
Inteligência artificial e sustentabilidade moldam o futuro do setor
A inteligência artificial já começa a impactar significativamente a rotina das administradoras de condomínios. Ferramentas capazes de automatizar tarefas operacionais permitem que profissionais dediquem mais tempo ao atendimento, à análise e à tomada de decisões.
Processos que antes demandavam horas de trabalho manual podem ser executados em poucos minutos, aumentando a produtividade e reduzindo erros. Ainda assim, especialistas alertam para a necessidade de cuidados relacionados à segurança da informação e à proteção de dados.
Paralelamente, pautas ligadas à sustentabilidade ganham cada vez mais espaço nos condomínios. Projetos de energia solar, reaproveitamento de água, infraestrutura para veículos elétricos e iniciativas alinhadas aos princípios ESG já fazem parte da agenda de muitos empreendimentos.
Nesse contexto, o setor caminha para um modelo em que tecnologia, eficiência operacional, responsabilidade socioambiental e experiência do morador estarão cada vez mais integrados.
Conclusão
O mercado condominial está deixando para trás modelos baseados apenas em processos operacionais para adotar uma abordagem mais estratégica, tecnológica e centrada nas pessoas. A digitalização acelerada dos últimos anos redefiniu expectativas e criou novos desafios para administradoras, síndicos e moradores.
Ao mesmo tempo, o acesso facilitado à informação elevou o nível de exigência dos consumidores, tornando indispensável a busca por transparência, agilidade e qualidade na gestão. Empresas que conseguem equilibrar tecnologia e relacionamento humano tendem a se destacar nesse cenário em constante transformação.
A inteligência artificial, a automação de processos e as práticas sustentáveis aparecem como tendências cada vez mais presentes, mas especialistas reforçam que a tecnologia deve atuar como ferramenta de apoio, sem substituir o papel estratégico e consultivo dos profissionais.
Como destacou Roberto Bigler durante sua participação no podcast Conexões para Crescer, do oHub, o futuro do setor dependerá da capacidade de compreender as necessidades reais dos moradores e transformar informação, tecnologia e experiência em soluções efetivas para a vida em condomínio.
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