Entenda como o treinamento empresarial evoluiu nos últimos anos, por que formatos “mão na massa” ganharam espaço e como curadoria, personalização e IA estão redefinindo a educação corporativa.
Em um cenário de trabalho cada vez mais acelerado, com excesso de reuniões, mensagens, metas apertadas e mudanças constantes, a pergunta deixou de ser “vamos treinar?” e passou a ser “para quê, exatamente?”. O treinamento empresarial, que por muito tempo foi visto como um item de rotina e às vezes até burocrático, hoje precisa justificar seu espaço na agenda e no orçamento. Para o colaborador, não basta ser interessante, tem que ser útil. Para a empresa, não basta ter horas de capacitação, é preciso ver impacto na prática.
Essa mudança ficou ainda mais evidente nos últimos anos, quando o mercado precisou se adaptar a diferentes formatos – presencial, remoto, híbrido e trilhas digitais – e, ao mesmo tempo, lidar com uma pressão maior por resultados. O que ganha força é o treinamento que ajuda a resolver problemas reais do dia a dia: melhorar vendas com abordagem consultiva, formar lideranças que conduzam equipes de alto desempenho, aumentar produtividade sem sobrecarregar pessoas, reduzir erros e retrabalho, e desenvolver autonomia para lidar com tecnologias e dados.
Para entender essas transformações, este artigo foi construído a partir de uma entrevista do podcast “Conexões para Crescer”, do oHub, com Luiz Felipe Pateo, cofundador e CTO da IC Educ. Ao longo da conversa, ele descreve como o mercado saiu de modelos tradicionais e pouco interativos para experiências mais práticas, personalizadas e alinhadas ao contexto de cada empresa, além de apontar tendências como sessões mais curtas, entregáveis pós-treinamento e o uso crescente e cuidadoso de inteligência artificial como ferramenta de apoio.
A virada do treinamento corporativo: do “tradicional” ao necessário
Por muito tempo, o mercado de treinamentos corporativos foi dominado por um modelo previsível com sala de aula, palestra longa e pouca interação. Segundo Luiz Felipe Pateo, era um cenário com pouca inovação, em que a experiência do participante se resumia a ouvir e anotar, nem sempre com efeito real na rotina.
A pandemia acelerou uma mudança que já estava a caminho: empresas precisaram treinar mesmo à distância, e isso abriu espaço para formatos remotos, híbridos e mais flexíveis. Na visão de Pateo, o que aconteceu foi uma “amplificação do modelo de educação”: presencial, online ao vivo, EAD, curta e longa duração e, principalmente, novas formas de consumir conteúdo.
Mais do que trocar o “meio”, mudou a exigência. A pergunta que passou a dominar a decisão do colaborador é direta: “Como esse treinamento vai facilitar a minha vida?”. Pateo resume a mudança com um recado duro para o modelo antigo que treinamento pra cumprir tabela caiu por terra.
Engajamento exige prática: menos fala, mais mão na massa
O nível de atenção no ambiente corporativo mudou. Entre reuniões, mensagens e demandas urgentes, parar para um treinamento só faz sentido quando há valor percebido e aplicação imediata. “O participante não engaja se ele ficar lá ouvindo”, explica Pateo. Esse ponto redefine o desenho de qualquer capacitação.
Na prática, o conteúdo “expositivo” perde espaço para dinâmica, exercício, debate e troca entre participantes. A lógica é simples. A pessoa aprende melhor quando pratica, conecta com a realidade e sai com clareza do que vai fazer diferente já no dia seguinte.Isso vale especialmente para temas como vendas, liderança e gestão.
O vendedor deixou de ser “tirador de pedido” para se tornar “solucionador de problemas”. E a liderança migra do estereótipo de “chefe carrasco” para o papel de conduzir “equipes de alto desempenho”, com método, clareza e alinhamento com objetivos.
Formatos mais curtos e inteligentes: o que funciona no presencial e no online
No online ao vivo, existe um limite prático e Pateo é categórico sobre o tema. “Não dá pra fazer treinamento online de oito horas. Esquece!”. Mesmo quatro horas já podem ser pesadas; por isso, cresce a preferência por sessões menores, com até três horas de duração, distribuídas em mais de um encontro.
Essa divisão ajuda em dois pontos: atenção e assimilação. Com blocos menores, o participante consegue planejar, participar de atividades, interagir e retornar com mais energia, sem depender de “câmera fechada” e multitarefa permanente que sabotam a retenção.
No EAD e no conteúdo gravado, a régua fica ainda mais rígida. Aulas longas desengajam; por isso, a tendência é quebrar temas em vídeos curtos, com sensação de progresso e retomada fácil. Pateo chama isso de “efeito Netflix”, quando o formato precisa respeitar o comportamento de consumo atual para não virar ruído.
Curadoria, personalização e confiança: o fim do “treinamento de prateleira”
Além do formato, existe um problema silencioso: conteúdo de mais, qualidade de menos. Pateo descreve o cenário como “a era da infobesidade”, em que a informação chega em avalanche e sem filtro. A metáfora dele é perfeita: “você já tentou beber água num hidrante de bombeiro?”.
Nesse contexto, a curadoria deixa de ser luxo e vira competência. Não basta ter material, é preciso selecionar fontes confiáveis, atualizar exemplos, ajustar linguagem e garantir relevância para aquele público e aquela empresa. Caso contrário, a capacitação vira um amontoado de slides bonitos e pouca transformação.
Também por isso, cresce a rejeição a treinamentos genéricos. Quando o conteúdo ignora o contexto, o participante percebe na hora e desconecta. O que funciona é traduzir conceitos para o dia a dia: mesmos fundamentos, aplicações diferentes porque o ambiente, o cliente, os desafios e as rotinas mudam radicalmente de um setor para outro.
IA, produtividade e entregáveis: o próximo ciclo do treinamento empresarial
A cobrança por resultados mensuráveis aumentou e isso altera o “pós-treinamento”. Em vez de encerrar com “valeu, tchau”, a tendência é sair com entregáveis claros: plano de ação, plano de desenvolvimento individual (PDI) e compromissos práticos para aplicar o conteúdo. Não resolve toda a complexidade de medir ROI, mas torna a evolução mais visível.
Nesse cenário, a inteligência artificial entra como ferramenta de apoio, não como substituto. “Não dá pra você substituir o julgamento humano”, reforça Pateo. O valor está em usar IA para pesquisa, curadoria, automação de diagnósticos e aceleração de processos, mantendo análise crítica e responsabilidade.
E há um recado importante para equipes e líderes: a automação tende a substituir tarefas repetitivas, não a inteligência aplicada. Como Pateo alerta, “o profissional que vai ser substituído é o profissional que faz tarefa mecânica e repetitiva”. A direção, portanto, é clara: treinar para aumentar repertório, análise, estratégia e capacidade de decisão, inclusive para melhorar produtividade sem explorar, e sim eliminar desperdícios e retrabalho.
Conclusão
O treinamento empresarial deixou de ser um item “de RH” e passou a ser uma decisão de performance. Só faz sentido quando entrega valor real para quem participa e para a empresa que investe. A mudança de formatos – presencial, remoto, híbrido – foi importante, mas o salto principal veio do foco em aplicabilidade, prática e relevância.
Para engajar, o caminho é reduzir o “monólogo” e aumentar a experiência: atividades, casos reais, trocas estruturadas e módulos mais curtos, especialmente no online. Além disso, a curadoria virou pilar: em um mundo de excesso de informação, escolher bem o que ensinar é tão importante quanto ensinar bem.
Nos próximos anos, a combinação de personalização, entregáveis pós-treinamento e uso inteligente de IA tende a separar capacitações que apenas informam daquelas que realmente transformam. No fim, fica a régua do próprio participante: se ele sai pensando “isso vai facilitar minha vida”, o treinamento cumpriu seu papel.
Ideias Dicas para fazer seu negócio crescer